Simplesmente está para lá do que possas querer. Está muito além dos dias que passas olhando para um céu sem fim, das noites que me dizes serem frias e sem sentido, das madrugadas em que, errante, te passeias sem rumo nas ruas estreitas da cidade escura, sem vida; ou sem a vida que queres que tenha ou sem aquela que conheces e não temes. Está tão fora o teu entendimento que nem tão-pouco arriscaria pensar que possas compreender que não sabes do que se trata. Já o tentei fazer. Imaginar. Fazer-me crer que poderias almejar esse saber. Ingénua forma de pensar essa que me tolheu o verdadeiro pensamento! Como me enganei! Como pensei que as subtilezas mais gritantes pudessem ser-te também evidentes! Só agora, neste banco de café, paredes meias com uma grande janela sobraceira à cidade em reboliço, dou a mão à palmatória e decido decididamente e sem dúvidas, que sei muito mais dessa tua ignorância do que deste natural fumegar que se eleva da minha chávena, pendente entre dois dedos. E se assim é, para quê teimar? Insistir em quê? Em ser "não exactamente aquilo que queria"? (...) Vai ser de rompante. De enfiada, como diz o puto lá da rua. Fácil, difícil, doloroso, aliviante. Um misto de tudo, quem sabe. Ou mesmo nada disso. E então apenas o fruto natural de uma necessidade inexplicável, que deixará marcas de sangue um pouco por todos e cada um dos caminhos que for trilhando no teu encalce. (...)
Recuperado do caderno, Agosto/'06
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Julho/'06, Foz do Porto