Já sinto de novo o frio. Os dias passam, afinal, tão depressa e num ritmo tão seu que jamais poderei sequer perceber; quanto mais ousar abrandar. As semanas sucedem-se, o corpo envelhece sem misericórdia. Os meses encadeiam-se, ignoram os pedidos que lhes faço e a mente... crescerá?
«Pergunto a mim mesmo o que irei fazer ao Paraíso. Não é lugar que me interesse... Só lá moram padres velhos e velhos aleijados, manetas e gente vestida de romeiras gastas de velhas, de trapos, em suma. É para o Inferno que quero ir, porque no Inferno vivem os belos estudantes e os belos cavaleiros que morreram em guerras magníficas, sem contar com os nobres e os valentes guerreiros. E, depois, (...) não é para o Inferno que vão o ouro e o dinheiro? E onde estão, senão no Inferno, os tocadores de harpa, os jograis e os príncipes deste mundo?»
[Aucassin et Nicolette, Romance Medieval]
