8 de abril de 2007

Outrora lido

Não para preguiçar e escusar-me a deixar fluir as minhas ideias; antes, apenas para transcrever partes de pensamentos e sentimentos passados para o papel algures no tempo por outr'alguém. Detalhes de leituras sem fim que por vezes regressam ao presente como se nunca o houvessem deixado, para repousar na memória.
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"A última coisa que quero é um engate verbal e não quero alimentar a opinião geral de que as mulheres americanas são «promíscuas», ao discutir um comportamento típico na minha cultura e não nesta. Mas corro o risco e digo a Otman que o meu último namorado era dez anos mais novo do que eu e que era muçulmano.
- Não correu bem - acrescento.
Otman faz apenas uma pergunta, mas diz-me que estava certa ao confiar na sua sensibilidade:
- Amam-se?
Olho pela janela para os intermináveis edifícios com a mesma cor de areia que vai deslizando por nós. Não quero que Otman veja as lágrimas que me vêm aos olhos. Sinto falta de Amir constantemente, quando não estou a entrevistar alguém ou a estudar árabe ou a fazer jogos de sedução na piscina; sinto a falta dele nos meus sonhos que me fazem acordar com lágrimas.
- Sim, acho que sim, mas acho que não há esperança.
- Se gostam um do outro, não há problema."
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[Ann Marlowe, O Livro da Inquietude]

4 de abril de 2007

Passagem de umas folhas que escrevi

Era um casaco pesado, carcomido pela traça, os cotovelos já bem marcados nas longas mangas outrora de um preto retinto, aquele que cobria uma figura de mulher, descuidadamente sentada no esguio banco de pernas altas, igual a tantos outros de outros tantos bares de terceira categoria. Sob uma luz sem cor definida [oscilando entre o vermelho sangue e o amarelo doentio], os seus contornos fundiam-se com o fumo dos cigarros, esquecendo-se de que, noutros dias, de um tempo diferente, compuseram uma acompanhante de luxo. Sentada ao fundo da sala, pestilenta pela mistura de odores – dos charutos baratos ao whisky mal destilado –, sentia no ar o perfume sem nome dos homens doentes e sem graça, o odor forte dos baralhos de cartas bolorentos, o calor de um compartimento pouco arejado que vivia de noite e se arrastava pelos dias.
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Diante das mãos envelhecidas [já não desfrutava de um creme fino havia mais tempo do que gostaria de ter visto passar], um copo a meia carga que observava desde que lho entregaram, bruscamente, sem maneiras. Perscrutava, de si para si, sem sequer mexer um músculo, respirando pausadamente, os caminhos já percorridos, os sabores mesclados de quando gostava de si, os magníficos serões na luxúria e opulência de suites requintadas. Por instantes, percorria o passado e regressava, a pique, ao presente. Arrepiava-se ao reparar nas roupas gastas e sem brilho que exibia, enojando-se da maquilhagem irritante que já não dispensava [vã tentativa de encontrar cor onde apenas tinha morada o negro da apatia]. E mais se perdia no líquido amargo, quando, das colunas bichentas com fios traçados, pressentia os versos conhecidos de uma canção vinda de outra vida… Ou desta.
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Who oo am I, what and why
Cos all I have left is my memories of yesterday
Ohh these sour times.
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Quem era e como se perdera? Apenas uma história viva e controversa, vagueando sem saber que se distanciara de casa.
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