Não sabem. Não sabem mesmo.
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Talvez te lembres do filme de que te falei um dia, aquele que poderia sair da nossa cabeça, dos nossos instantes, ser filmado em fita auto-destrutível, esfumar-se diante dos olhos cerrados de todos eles. No fundo, porque não sabem. Não conhecem por dentro, nem por fora porquanto caminham com vendas, a realidade que acredito sonharem secretamente, porém vendo-a sem pre sem contornos definidos. Afinal, os sonhos são assim quando, na noite, surgem sem ter havido realidade que os tocasse.
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Não sabem o que é adormecer imerso num perfume que passou de um tu para este eu que se perde na tua presença. Adormecer sentindo ainda o calor da tua pele, essa que se encostou a mim e roubou parte do perfume que nunca quis distribuir ao acaso; essa pele que se arrepia quando respiro ao teu lado. Adormecer ao sabor dos ecos do que me contas baixinho, ao ouvido, mesmo sem palavras. Porque às vezes os outros sentidos também falam. E eu sei escutar o que me dizem em surdina, tão perto de mim que a luz recua. Deixa-nos no escuro. Apenas ilumina a estrada lá fora, deixando que me conheças sem ver. Um pouco como aprendi a reconhecer o contorno de ti na multidão.
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Não sabem o que é encostar-se ao peito de um tu e desenhar na pele humedecida, o lugar do coração que bate protegido, sossegado. Deitar a cabeça e adormecer embalado pelo compasso da tua respiração, esquecendo que há um mundo lá fora.
Não sabem e julgam invejosamente a tal falta de juízo de gente que devia ser de bem. Mas sabes o que digo? Claro que sabes. A gente é de bem e muito ajuizada. Só que a gente sente, ousa e toca, embarca no abraço que muitos evitam, dissimulam.
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A gente partilha mais do que o corpo e a outra gente, que acorda com um vazio na alma, nunca viverá os instantes em que a respiração estremece e a cor dos olhos se confunde.
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Não sabem. Não sabem mesmo. Todos eles. Fechados num casulo de betão que lhes barra o pensamento e afunda a rebaixa a existência, temendo o que vivemos na rua, à beira mar, no mais alto dos edifícios. Onde ninguém nos vê.
Não sabem de onde vem o estender de mão que nos junta num lugar para um, procurando cada contorno de nós esse pedacinho do outro que torna a viagem mais segura.
Não sabem como se constrói uma história proibida, cujos detalhes apenas nós conhecemos e nos dizem sermos mais do que ajuizados e portanto actores principais e únicos espectadores de um filme banido pelo pudor dos críticos literários que jamais avistaram o livro invisível que escrevemos a cada dia. A cada momento de perdição, choro, riso, desfalecimento.
.Não sabem, pois não?
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