Vou pousar a caneta. Deixar de lado as loucuras pensadas racionalmente num rasgo de insanidade qualquer. As letras escapam das margens e fogem; correm pelo papel, galgam o lápis esquecido ali ao pé e correm rumo a um desejo qualquer que não me contaram. Anseio que apenas elas conhecem no fundo de si. Que vão. Que encontrem. Que vivam noutras linhas e cadernos. Boa viagem. Com pouco para contar e nesse imenso que então poderia divagar dissimulado em histórias fantásticas, pouso a caneta. Ouço o sono ao longe, alucinação, delírio esquizoide. Nada mais. Lembrança vaga. Ténue. Inconstante com o passar incansável dos dias e quase arquivada sem retorno. Vejo sem cor a calma, miragem neurótica fugaz. Impalpável. Ausente. E não me apetece pegar na caneta. Acho, não, certamente alguém acordou a alguns passos daqui. Apenas para beber água. Nada mais. Faço silêncio ainda maior, para não ouvir a minha respiração e poder retornar ao lençol que deixou para trás, até que a manhã chegue. Não me iria abrir os dedos, chamando assim pela caneta que pousei, portanto que vá, durma e se entregue ao descanso do ser e sentir e pensar. Boa noite. Velo pelo seu cerrar de pálpebras no recato do seu pedacinho de mundo secreto. Entretanto vejo o ponteiro rodar. Outros sonos hão-de estar dormindo. A minha caneta também. Ali, deitada sobre a madeira abrilhantada pelo unguento de cedro, manjar dos deuses que cuida da sua longevidade. Onde a deixei. Já sem ideias; daquelas que se imaginam e das outras. Aquelas que criam a realidade.
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